lunedì 30 agosto 2010

EFIGÊNESIS

Carolina Tomasi

“Cada pessoa tem que escolher quanta verdade consegue suportar.”
Nietzsche

É difícil. Veja o que é capaz de suportar! Difícil também é arrumar as roupas do Arnaldo no guarda-roupa. Difícil ainda é acordar sempre com a mesma pessoa ao lado. E ter o mesmo prazer do início. Arnaldo, tô com crise de gastrite! A crise era da convivência e da conveniência. Toma malox, Helena! Haja suco gástrico e pastilhas antiácidas...
Almoço na casa dos parentes do Arnaldo... Pé no saco! Outra questão difícil. Tia, mãe, pai, sobrinhos, gato, papagaio, galinha de angola. Família... O nosso inferno são os outros e a família, sobretudo. E nós também, com nosso lado A e lado B... Arnaldo, neste domingo não vou na sua mãe! Tá, Helena! Ele nem ligava mais. Agora... se o Palmeiras perdesse... Quinze anos juntos. Na merda e na tristeza... O fim estava bem longe... Convites de casamento poderiam ter data de fim. “Senhores, convidamos para o desenlace no dia tal na Rua Augusta...” Lista de casamento só no divórcio... quando a casa inteira está quebrando: copo do liquidificador rachando, chuveiro queimando, boca do fogão entupindo, pratos lascando, garfos entortando, panela amassando... Inexorabilidade das coisas. Fim das coisas... Tudo partindo... Se-xo no Ca-Lendário. {com AR-NAL-DO}
No início, era à luz de vela até se extinguir. Agora, luz apagada. Tudo rápido como aquele cometa que ninguém viu passar... [Com Italo... era bem diferente].
A vida em casa: tédio. Na rua, eu me divertia. Arnaldo nem percebia [ou fingia]. Eu, como escritora, era uma fingidora. Ele, como leitor, era crédulo. Dois crápulas. Tudo estava no contrato. Tabelião número 34. Cartório Civil. Testemunhas. Vou lançar a teoria do casamento sórdido. Sai uma noiva toda de branco em seu carro... passa o “Lapa-Penha” e salpica-lhe o vestido. Prenúncio de um casamento falido... À espera do esperado.
Divorciar não era o caso. Fingir era melhor. Separar casa. Separar contas. Separar dívidas na conta bancária. Divisão dos TRENS: conjunto de pratos OXFORD “lascados” pra um, talheres de prata “arrebentados” pro outro, frigideira “cascuda” pra um, panela de pressão “sem válvula” pro outro, lençol “furado” sem as fronhas pra um, toalhas de banho respingadas de “cândida” pro outro... Divisão de mazelas... Sem contar os CACOS eletrônicos. Como colecionamos tanta coisa ruim durante a vida!?
Separar... uma boa solução... ou não. Melhor fingir? Talvez! Eu falo e ele acredita. Ele escreve e eu aceito. Tudo está no contrato.
Sem contar as escapa-delas... as espa-“cadelas”. A minha eu garantia. Arnaldo também. Homem é homem...
E mulher é mulher...
E criou a MULHER o HOMEM; e o HOMEM a MULHER criou. E foram infelizes para quase sempre.

martedì 3 agosto 2010

Casal imperfeito

Carolina Tomasi

“O nosso amor é tão bom.
O horário é que nunca combina.
Eu sou funcionário.
Ela é dançarina.
Quando pego o ponto.
Ela termina.”

Chico Buarque


Ele dizia hoje. Ele dizia amanhã. Ele madrugava. Ela não sabia que horas ia levantar. Ele tomava leite. Ela bebia café. Ele limpava. Ela sujava. Ele fazia amor. Ela fazia sexo. ElAElelaEle. Ele, do Bixiga. Ela, da Barra Funda. Ele fazia rimas. Ela construía poesias. Ele comia. Ela jantava. Ele falava inglês. Ela falava francês. Ele comprava. Ela consumia. Ele estudava. Ela lia. Ele andava. Ela caminhava. Ele gerou. Ela pariu. Ele escrevia. Ela anotava. Ele notava. Ela observava. Ele conversava. Ela discutia. Ele votava. Ela justificava. Ele masturbava. Ela penetrava.
Ela, tristeza. Ele, alegria. Alegria era ela. Tristeza era ele. Ela degustava. Ele bebia. Ela era mundo. Ele era bairro. Ela dirigia. Ele conduzia. Ela gostava de gato. Ele amava cachorro. Ela era gosto. Ele era amor. ElAElelaEle. Amor era ela. Gosto era ele. Ela gozava. Ele desfrutava. Ela tirava férias. Ele tinha folga. Ela gritava. Ele sussurava. Ela dissimulava. Ele mentia. Ela tinha renda. Ele tinha salário. Ela ouvia música. Ele ligava o rádio. Ela fazia som. Ele produzia ruído. Ela tocava. Ele aplaudia. Ela cantava. Ele cantarolava. Ela digitava. Ele deletava. Ela acelerava. Ele brecava.
Ele deitava. Ela levantava. Ele vestia. Ela despia. Ele achava. Ela perdia. Ele vivia. Ela morria. Morria ele. Vivia ela. Ele, homeopatia. Ela, alopatia. Ele, chá. Ela, coca-cola. Natureza era ele. Cultura era ela. Ele era ar puro. Ela era fumaça. Ele nadava. Ela bebia. Ele era pai. Ela era mulher. Mulher era ele. Viril era ela. Ele temia. Ela enfrentava. Ele dançava. Ela sambava. Ele balbuciava posso. Ela urlava não posso. Ele: agora. Ela: daqui a pouco. Ele queria. Ela não queria. Ele, verdade. Ela, verossimilhança. Ele era surdo. Ela era sonora. Pele. Bela. Ele, pele. Ela, bela.
Levantavam.Deitavam.Dormiam.Acordavam. Faziamsexo.Seamavam.
Seperdiam.Sencontravam. Limpavam.Sujavam. Almoçavam.Jantavam. Dançavam.Cantavam. Bebiam.Comiam. ElAElelaEle: imperfeitos. Conjugavam a vida. Viviamorriam. Elela era um casal imperfeito: aCASAlaMento. Viveram quase felizes. Não para sempre. Quase sempre infelizes... até que a vida os separasse e a morte os unisse na cova 75 do Araçá, São Paulo, Capital, 26 de maio de 2010.