Carolina Tomasi
“Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil”
Ferreira Gullar
2010. Domingo. Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Crepúsculo. Copacabana meio iluminada meio sombria. 18h30. Todos pela rua. Bolsas na vitrina. Do lado, um homem de cabelos brancos. Soltos no ar. Tipo chanel e sensual. Belo! Belo! Não era Manuel Bandeira. Morto em 1968.
Disfarçava, procurando alguma coisa dentro da minha bolsa molambenta (perto daquelas da vitrina!). Aqueles cabelinhos tinham me atraído. Sem qualquer esperança... Não me olhava.
Procurava alguma bolsa também. Invejei sua mulher. Ele estava metido no vidro da vitrina. Saiu andando. Resolvi segui-lo. A multidão era um vai e vem só. Um entra e sai. Saíam e entravam nos “pés sujos” do bairro. Uma cerveja, garçom. O cabelinho branco entrando no copo. Tomou uma e saiu. Sem tempo, não bebi nada. Saí em disparada atrás daqueles pés de velocípede. Ele andava muito esbeltamente depressa.
Cinema. Um entra e sai. Em cartaz, Elevado 3.5. O rosto dele surgia e sumia. A multidão cobria a sua face. Comecei a segui-lo pelo branco dos cabelos. Surgia e sumia. Um vislumbre. Meu coração disparava. Ele, lá na fila do cinema. Vestia azul. Miragem. Ele não estava lá. Da calçada vejo um automóvel. Era ele. Não. Ele tinha cruzado a rua. Agora não era miragem. Conferi. Lá estavam os fios branquinhos passeando. Ele se desintegrava como a tarde de Copa. Nuvens de outono no céu roxo.
A cidade era grande. Ele era um só. Entre 6.186.710, ele era um só. Parado ou andando. Eu continuava a segui-lo. Ah, se ele soubesse! Na rua ao lado, na praia, no terraço de um edifício velho... lá estava eu. Fiel.
Era ele! Talvez ele estivesse vindo ao meu encontro. Caminhava em minha direção misturado às pessoas da Avenida. Sem esperança. Que esperança?! Tenho uma chance entre 6.186.710. Se ele fosse ao menos quatro mil espalhados pela cidade...
Não sabia seu nome. A noite se fazia mulher. Estrelas na Avenida. Sem um pingo de esperança... meus olhos repetiam o seu rosto, os seus cabelos. Buzina. Fedor de gasolina queimada. Atravessei a rua. Continuei procurando-o. O carro desviou-se de mim. Blusa azul! Era ele! Por um triz, peito atropelado. Quase atropelada dentro da noite veloz.
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