mercoledì 2 novembre 2011

Niente pace

“As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. As coisas não têm paz.” Arnaldo Antunes Avestruz. Vive de 40 a 60 anos. Pesado. Alto. Ovo enorme. Eu estou com mais de 50. Se eu fosse um avestruz, ou já teria morrido, ou estaria pra morrer. Com essa idade, descubro que um avestruz é alto... quase dois metros de altura... que seu ovo equivale a 24 ovos de galinha e que com ele faço omelete pra quase 20 pessoas. Quanto tempo faz que eu não vejo o Italo! Que saudade! Um aperto. Uma aflição. Sequei uma lágrima com a pontinha do dedo. Dei uma disfarçada. Ninguém vai ver. Amoitei a lágrima. Boa noite, Marta! Dei um “ciaozinho” tímido pra vizinha. A noite veio bem vestida de preto, com uma pedra de diamante. Era a lua cheia. Eu enxergava Marta querendo ver Italo. Fechei os olhos. Deitei no sofá. Como ele era lindo, meu Deus! O homem mais lindo que eu já conheci. Sorriso leve. Olhinho doce. O olhinho do Italo falava. Me dizia coisas... O olhar dele tinha voz. Olhos pulo-falantes. Pululantes. Olhei pela janela. Dez anos! Dez anos se passaram. A última vez que eu vi Italo... Era em uma noite de lua como a de hoje. Saí correndo do bar. Subi uma ladeira. O caminho era mais longo do que o esperado. Minha perna queria dar vários passos maiores do que ela conseguia. Tudo isso pra alcançá-lo. Coração-bomba disparou quando mirei aquele homem. Percebi que ele me viu. Disfarcei. Passo a passo fui chegando. Encostando. Hora do abraço. Abracei Italo mais forte do que eu podia. Meus pés choravam a altura dele. Cheiro de jaqueta nova. Jeans. Fiquei muda. Vontade de dizer. Não some, fica Italo... Fica mais um décimo de minuto! Mas as coisas não são assim. Felicidade talvez seja vaidade. Era trocar aquele amor pelo tédio da união. Vê-lo todo dia para começar a não enxergá-lo mais. Se ele dormisse comigo todos os dias? O sorrido dele perderia a leveza. Os olhinhos... talvez... perdessem o açúcar! As coisas não têm paz. Non c´è pace. Niente pace. Italo!... Italo!... Italo!... Helena, quem é Italo? Italo!? Arnaldo, você precisa ler mais! Italo Calvino. Il visconte dimezzato. Já leu, Arnaldo? Aqui no Brasil se chama O Visconde Partido ao Meio. Ele não conhecia nem em Português nem em Italiano. Comecei a contar pra Arnaldo a narrativa do romance... Um visconde que vai a guerra e, ao participar de uma batalha bastante dura e sangrenta, se vê ferido mortalmente. Ao ser jogado num carro de feridos do campo de batalha ele é partido ao meio. A primeira metade que aparece retorna a seu reino, fazendo todo tipo de maldade... A outra parte dele... Arnaldo, tá me escutando? Tô, Helena. [Mentira] Continuei contando a Arnaldo a história do livro. Fechei os olhos. Senti ainda o cheiro da jaqueta... Meu pensamento tocou a pele de Italo... como naquela noite... sorriso leve... olhinho doce daquele inesquecível homem. Helena, continua! Quê, Arnaldo?!

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