Carolina Tomasi
“[...] vamos direto ao ponto, eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto, que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida. Tal avidez tem algo de plebeu, não acha? [...] Morre-se, se for preciso, antes quebrar que dobrar. Mas, eu, eu me dobro, porque continuo a me amar”
Albert Camus. A queda.
“C´est très simple: je l´ai découvert le jour où j´ai pensé à me tuer pour leur jouer une bonne farce, pour les punir, en quelque sorte. Mais punir qui? Quelques-uns seraient surpris; personne ne se sentirait puni. J´ai compris que je n´avais pas d´amis.”
Albert Camus. La chute.
Não tenho mais amigos. O prato rodava em cima da mesa. O rato roendo o pé da mesa. Roía minha roupa rota. Rota estava minha vida. Ruína. Rodízio de gente rodada. Eu, rasgada, rompida. Rato passava de novo, perto do meu prato. Levantei. Enrosquei no rasgo da minha saia rodada. Rugas no meu rosto. Reumática. Bom adjetivo pra mim. Cocô de rato e Coco Chanel misturados no ar. No chão da cozinha. Última gota. Xixi do rato rocambolesco. Tropecei no rodo. Retrocesso. Quase caí. Rum. Abri a garrafa. Tomei um gole.
O rato estava me incomodando. Uma ripada no rato era pouca. Eu e ele. Parecia que o rato quisesse rezingar. Retardo o passo. Medo do roedor. Veneno. Pego um resto de faca na gaveta. Enferrujada. Reservo. O repórter ia começar. Sem preocupação. Sem amigo. Sem telefonema. Sem rusga. Repenso. Ligo a TV no quarto. Volto pra cozinha. O rato tinha tomado o meu lugar. Na frente do prato.
Repescagem. Reinicia a disputa. Dois a zero pro Rato. Gordo. Repolhudo. Racomim. Rasguei o pacote. Rodava o rato de novo. Requintado. Ele queria comer no meu prato. Réquiem para o rato. Requentei a comida. De fria pra quente. Ovo. De mole pra duro. Resisto. De frente pro veneno. Respeito ao rato. Respingo vinagre na salada. Silêncio. Respiração do roedor. Acelerada. Abri a torneira. Boca ressacada. Retina seca. Meti a boca na saída da água. Fiz da mão uma concha. Água nos olhos. Retrocedo. Sento. Retrete de novo. Latrina suja. Da vida, revezes.
Enchi a colher. Revide. Retrospecto. Vi os amigos saindo da minha vida. Um a um. Ratazanas. Não rima. Tem ritmo. Derramei a colher dentro do prato quase vazio. Agora, cheio de Racomim. O rato rodopiava. Parecia que ele estava pressentindo. Roleta-russa. Eu ou o rato... Cansaço. Eu e o rato. Levantei. Ruge-ruge da minha saia pelo chão. Ruidosa. Rato ruim. Meu cúmplice. Se eu pudesse me suicidar. Um suicídio diferente. Que eu pudesse ver depois disso a cara de algum amigo, de um rato que fosse... Só assim compensaria pagar o preço da morte. Vejo o olho do rato. Pedindo perdão. Era meu lado cruel. Nem mais nem menos que a crueldade de meus amigos. Eu e o rato... ali. Sem perdão. Amo a vida: minha debilidade. Não me matei. Matei o rato. Matei-o com dignidade. Ele comeu o veneno no meu prato. De porcelana. Nojo de mim. Levantei. Retrocedi. Rato morto. Apaguei a luz da cozinha. Entrei no quarto. Outro rato.
sabato 9 ottobre 2010
O toque e a unha
Carolina Tomasi
“Uma efêmera sensação tátil, o contato delicado do sujeito com o outro – o veludo, a bochecha – é tudo o que resta quando não há mais nada a esperar. ”
Algirdas Julien Greimas
Tanta baboseira passava pela minha cabeça. Tudo muito confuso. A ideia era abrir a porta. Sair. O ritmo era outro agora. Ritmo de sofá. Silenciei a música. Até aquilo me incomodava. Tirei o sapato. O aperto não era no pé. Era no peito. Mexi os dedos do pé. A unha estava comprida. Hora de cortar. E o trim? Os objetos flanavam em casa. A bagunça estava dentro, estava fora. Assoei o nariz. Muita coriza. Joguei o lencinho sujo no chão da sala. Amanhã, a moça vem. Limpa tudo isso. Ainda bem que Arnaldo não está. Eu sujava ele limpava. O barulhinho do trim. As unhas caindo. Um vazio dentro de mim. Uma unha pulou dentro do meu sutiã. Piquenta. O meu dedo ficou procurando aquela unha perdida. No cantinho, quando o seio vira pele de novo... lá estava a unha. Pensei no meu pai. Aprendi com ele a usar o trim. Masculino. Trim é coisa de homem. De homem e de louco, toda mulher tem um pouco. Empurrei pra debaixo do sofá aquele monte de unha picada, solta. Elas fazem curvinhas. Parece uma lua crescente. A unha do dedão do pé... é a mais gorda, mais dura.
Deitei. Uma unha me picava as costas. Virei. Comecei a procurar a maldita. Tinha ficado um pedacinho ali... resistente... no tecido de bolas. Joguei aquela unha, minúscula lâmina, no chão. Me espreguicei. Silêncio. Barulho de marreta lá fora. A cortina balançava... batia no meu pé. Tentei fechar os olhos para esquecer. Pensei no Arnaldo. Era melhor esquecer. Esperar o Arnaldo era inútil. Só se espera o esperado. Desesperar era melhor. Ex-EsperoExaspero. Virei de bruço. Fechei o olho. Abri. Peguei o celular. Nada do Arnaldo. Era fruto da minha cabeça. Criei aquele Arnaldo. A gente cria pessoas. A gente cria o objeto. Depois, o vazio. Tinha criado um Arnaldo. Amável. Leal. Atencioso. Carinhoso. Companheiro. Desleal. Bruto. Grosseiro. Infiel. Garanhão. Comedor. Arnaldo do começo do meio e do fim. Três Arnaldos em um corpo só. Era uma mistura de tudo. Eu também não me conhecia mais. Era eu a mulher do Arnaldo: a do começo, a do meio ou a do fim? Jurei silêncio. Ele gostou do meu silêncio. Sumiu. Deixou a escova de dente.
Passava metade da minha vida perdendo remédio, batom, Arnaldo e a outra metade procurando Arnaldo, batom, remédio. Batom sem Arnaldo... Remédio por causa de Arnaldo. Quanto remédio a gente toma na vida por causa dos outros? O meu inferno sou eu e o outro. Muito de mim tem no outro e muito do outro está dentro de mim. Cada ml de omeprazol atribuo a alguém e o último ml a mim, gástrica de carteirinha.
Me virei de frente. As costas doíam. Não queria voltar para o computador. Tudo me lembrava o Arnaldo. A falta do torpedo. A falta do e-mail. A falta do toque. O toque do Arnaldo... O tato é o sentido mais profundo. É a união total. Toco o Arnaldo o Arnaldo me toca. Minha direção é o toque. Tocava Arnaldo... deixávamos de ser sujeito e objeto... éramos uma coisa só... pelo menos no instante do toque. Saudade de tudo. O meu espaço não era mais aquele. O meu tempo era outro. O agora me chamava. Tinha de escrever. Nem aqui nem agora me interessavam mais. Eu era outrora e alhures. Levantei do sofá. Dor na sola do pé: uma picadinha. Levantei a sola pra ver. Era um caco de unha me picando. Na cozinha, um pedaço de pizza fria. Abri o computador. O conto precisava começar.
“Uma efêmera sensação tátil, o contato delicado do sujeito com o outro – o veludo, a bochecha – é tudo o que resta quando não há mais nada a esperar. ”
Algirdas Julien Greimas
Tanta baboseira passava pela minha cabeça. Tudo muito confuso. A ideia era abrir a porta. Sair. O ritmo era outro agora. Ritmo de sofá. Silenciei a música. Até aquilo me incomodava. Tirei o sapato. O aperto não era no pé. Era no peito. Mexi os dedos do pé. A unha estava comprida. Hora de cortar. E o trim? Os objetos flanavam em casa. A bagunça estava dentro, estava fora. Assoei o nariz. Muita coriza. Joguei o lencinho sujo no chão da sala. Amanhã, a moça vem. Limpa tudo isso. Ainda bem que Arnaldo não está. Eu sujava ele limpava. O barulhinho do trim. As unhas caindo. Um vazio dentro de mim. Uma unha pulou dentro do meu sutiã. Piquenta. O meu dedo ficou procurando aquela unha perdida. No cantinho, quando o seio vira pele de novo... lá estava a unha. Pensei no meu pai. Aprendi com ele a usar o trim. Masculino. Trim é coisa de homem. De homem e de louco, toda mulher tem um pouco. Empurrei pra debaixo do sofá aquele monte de unha picada, solta. Elas fazem curvinhas. Parece uma lua crescente. A unha do dedão do pé... é a mais gorda, mais dura.
Deitei. Uma unha me picava as costas. Virei. Comecei a procurar a maldita. Tinha ficado um pedacinho ali... resistente... no tecido de bolas. Joguei aquela unha, minúscula lâmina, no chão. Me espreguicei. Silêncio. Barulho de marreta lá fora. A cortina balançava... batia no meu pé. Tentei fechar os olhos para esquecer. Pensei no Arnaldo. Era melhor esquecer. Esperar o Arnaldo era inútil. Só se espera o esperado. Desesperar era melhor. Ex-EsperoExaspero. Virei de bruço. Fechei o olho. Abri. Peguei o celular. Nada do Arnaldo. Era fruto da minha cabeça. Criei aquele Arnaldo. A gente cria pessoas. A gente cria o objeto. Depois, o vazio. Tinha criado um Arnaldo. Amável. Leal. Atencioso. Carinhoso. Companheiro. Desleal. Bruto. Grosseiro. Infiel. Garanhão. Comedor. Arnaldo do começo do meio e do fim. Três Arnaldos em um corpo só. Era uma mistura de tudo. Eu também não me conhecia mais. Era eu a mulher do Arnaldo: a do começo, a do meio ou a do fim? Jurei silêncio. Ele gostou do meu silêncio. Sumiu. Deixou a escova de dente.
Passava metade da minha vida perdendo remédio, batom, Arnaldo e a outra metade procurando Arnaldo, batom, remédio. Batom sem Arnaldo... Remédio por causa de Arnaldo. Quanto remédio a gente toma na vida por causa dos outros? O meu inferno sou eu e o outro. Muito de mim tem no outro e muito do outro está dentro de mim. Cada ml de omeprazol atribuo a alguém e o último ml a mim, gástrica de carteirinha.
Me virei de frente. As costas doíam. Não queria voltar para o computador. Tudo me lembrava o Arnaldo. A falta do torpedo. A falta do e-mail. A falta do toque. O toque do Arnaldo... O tato é o sentido mais profundo. É a união total. Toco o Arnaldo o Arnaldo me toca. Minha direção é o toque. Tocava Arnaldo... deixávamos de ser sujeito e objeto... éramos uma coisa só... pelo menos no instante do toque. Saudade de tudo. O meu espaço não era mais aquele. O meu tempo era outro. O agora me chamava. Tinha de escrever. Nem aqui nem agora me interessavam mais. Eu era outrora e alhures. Levantei do sofá. Dor na sola do pé: uma picadinha. Levantei a sola pra ver. Era um caco de unha me picando. Na cozinha, um pedaço de pizza fria. Abri o computador. O conto precisava começar.
mercoledì 6 ottobre 2010
Bem de amar alguém
Carolina Tomasi
“[...]
não se decide amar e nem a quem
ninguém comanda a tentação que tem
cupido não divulga quando vem
deixando o alvo tenro sem porém
[...]
amar alguém não tem explicação
não há como conter um furacão
os corpos vivos sofrem atração
apaixonados não têm coração
[...]
querer acaba quando já se tem
amar é só continuar querendo
embora cause tanto sofrimento
amar alguém só pode fazer bem
[...]”
Arnaldo Antunes
“Toalha molhada
Lâmpada acesa
Cidade parada
Tudo é você”
Adriana Calcanhoto
Tudo parado. Cidade parada. Luz desligada. Cortaram a força. Arnaldo se esquecia de pagar as contas de casa. Toalha molhada na cama. Vela no chão. Tv desligada. 130 km de congestionamento na cidade. Eu preciso do beijo do Arnaldo agora! Tudo era ele. Coisa ruim era ele. Coisa boa era ele também. Noite chegando. Nuvem de chuva. Tarde apagando. Eu preciso do beijo dele agora! Onde ele andaria? Celular sem sinal. O dele. O meu sempre tinha. Ele nunca me ligava. Ele aparecia. O beijo dele. Eu queria agora! Acendi mais três velas. Uma pra mim. Outra pro Santo. Outra pro apagão por falta de pagamento.
Banho frio. Cortaram a Light. Medo de cair. Escuro. Medo de água gelada. O desejo do Arnaldo acabou quando ele me teve. Peguei o celular. Disquei. Apertei o verde. Me arrependi. Apertei o botão vermelho. Desisto. Era só esperar. Só não. O só parece pouco. Esperar não é pouco. Pouco pra quem tem de fazer. Eu tinha de esperar. E Muito! Muito pra quem espera. Pouco pra quem faz... Ele tinha que vir e me beijar. Agora!
Já passa da hora. Eu preciso do beijo dele agora! Era só ele continuar querendo me amar e estava tudo resolvido. Tudo seria muito. Excesso também não dá. Amar o Arnaldo me causa sofrimento. “Mas”. Por que sempre tem de ter MAS, PORÉM, CONTUDO, TODAVIA?... Mas amar Arnaldo só pode me fazer bem. Eu preciso do beijo dele agora! Só se eu fosse procurá-lo por São Paulo inteira mesmo tendo de enfrentar 130 km de congestionamento. Madrugada afora. Tudo era Arnaldo. O cheiro dele pela casa inteira. Ou eu me contentava com o cheiro dele no lençol, ou eu saía por aí. Eu não decidi amá-lo nem tive o aviso prévio do meu cupido. Agora, aguenta, Helena! Não tinha explicação.
Peguei a toalha molhada. Me esparramei na cama. Vento na janela. Botei a cabeça pra fora da cabeceira. Não dava pra ver o teto do quarto. Eu quero o beijo dele agora! Parece canção de novela... Cheirinho dele no travesseiro. Não dava pra conter. Furacão. Tentação. Esperar o Arnaldo e nada mais. Apaixonados têm pouco coração.
“[...]
não se decide amar e nem a quem
ninguém comanda a tentação que tem
cupido não divulga quando vem
deixando o alvo tenro sem porém
[...]
amar alguém não tem explicação
não há como conter um furacão
os corpos vivos sofrem atração
apaixonados não têm coração
[...]
querer acaba quando já se tem
amar é só continuar querendo
embora cause tanto sofrimento
amar alguém só pode fazer bem
[...]”
Arnaldo Antunes
“Toalha molhada
Lâmpada acesa
Cidade parada
Tudo é você”
Adriana Calcanhoto
Tudo parado. Cidade parada. Luz desligada. Cortaram a força. Arnaldo se esquecia de pagar as contas de casa. Toalha molhada na cama. Vela no chão. Tv desligada. 130 km de congestionamento na cidade. Eu preciso do beijo do Arnaldo agora! Tudo era ele. Coisa ruim era ele. Coisa boa era ele também. Noite chegando. Nuvem de chuva. Tarde apagando. Eu preciso do beijo dele agora! Onde ele andaria? Celular sem sinal. O dele. O meu sempre tinha. Ele nunca me ligava. Ele aparecia. O beijo dele. Eu queria agora! Acendi mais três velas. Uma pra mim. Outra pro Santo. Outra pro apagão por falta de pagamento.
Banho frio. Cortaram a Light. Medo de cair. Escuro. Medo de água gelada. O desejo do Arnaldo acabou quando ele me teve. Peguei o celular. Disquei. Apertei o verde. Me arrependi. Apertei o botão vermelho. Desisto. Era só esperar. Só não. O só parece pouco. Esperar não é pouco. Pouco pra quem tem de fazer. Eu tinha de esperar. E Muito! Muito pra quem espera. Pouco pra quem faz... Ele tinha que vir e me beijar. Agora!
Já passa da hora. Eu preciso do beijo dele agora! Era só ele continuar querendo me amar e estava tudo resolvido. Tudo seria muito. Excesso também não dá. Amar o Arnaldo me causa sofrimento. “Mas”. Por que sempre tem de ter MAS, PORÉM, CONTUDO, TODAVIA?... Mas amar Arnaldo só pode me fazer bem. Eu preciso do beijo dele agora! Só se eu fosse procurá-lo por São Paulo inteira mesmo tendo de enfrentar 130 km de congestionamento. Madrugada afora. Tudo era Arnaldo. O cheiro dele pela casa inteira. Ou eu me contentava com o cheiro dele no lençol, ou eu saía por aí. Eu não decidi amá-lo nem tive o aviso prévio do meu cupido. Agora, aguenta, Helena! Não tinha explicação.
Peguei a toalha molhada. Me esparramei na cama. Vento na janela. Botei a cabeça pra fora da cabeceira. Não dava pra ver o teto do quarto. Eu quero o beijo dele agora! Parece canção de novela... Cheirinho dele no travesseiro. Não dava pra conter. Furacão. Tentação. Esperar o Arnaldo e nada mais. Apaixonados têm pouco coração.
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