Carolina Tomasi
“Uma efêmera sensação tátil, o contato delicado do sujeito com o outro – o veludo, a bochecha – é tudo o que resta quando não há mais nada a esperar. ”
Algirdas Julien Greimas
Tanta baboseira passava pela minha cabeça. Tudo muito confuso. A ideia era abrir a porta. Sair. O ritmo era outro agora. Ritmo de sofá. Silenciei a música. Até aquilo me incomodava. Tirei o sapato. O aperto não era no pé. Era no peito. Mexi os dedos do pé. A unha estava comprida. Hora de cortar. E o trim? Os objetos flanavam em casa. A bagunça estava dentro, estava fora. Assoei o nariz. Muita coriza. Joguei o lencinho sujo no chão da sala. Amanhã, a moça vem. Limpa tudo isso. Ainda bem que Arnaldo não está. Eu sujava ele limpava. O barulhinho do trim. As unhas caindo. Um vazio dentro de mim. Uma unha pulou dentro do meu sutiã. Piquenta. O meu dedo ficou procurando aquela unha perdida. No cantinho, quando o seio vira pele de novo... lá estava a unha. Pensei no meu pai. Aprendi com ele a usar o trim. Masculino. Trim é coisa de homem. De homem e de louco, toda mulher tem um pouco. Empurrei pra debaixo do sofá aquele monte de unha picada, solta. Elas fazem curvinhas. Parece uma lua crescente. A unha do dedão do pé... é a mais gorda, mais dura.
Deitei. Uma unha me picava as costas. Virei. Comecei a procurar a maldita. Tinha ficado um pedacinho ali... resistente... no tecido de bolas. Joguei aquela unha, minúscula lâmina, no chão. Me espreguicei. Silêncio. Barulho de marreta lá fora. A cortina balançava... batia no meu pé. Tentei fechar os olhos para esquecer. Pensei no Arnaldo. Era melhor esquecer. Esperar o Arnaldo era inútil. Só se espera o esperado. Desesperar era melhor. Ex-EsperoExaspero. Virei de bruço. Fechei o olho. Abri. Peguei o celular. Nada do Arnaldo. Era fruto da minha cabeça. Criei aquele Arnaldo. A gente cria pessoas. A gente cria o objeto. Depois, o vazio. Tinha criado um Arnaldo. Amável. Leal. Atencioso. Carinhoso. Companheiro. Desleal. Bruto. Grosseiro. Infiel. Garanhão. Comedor. Arnaldo do começo do meio e do fim. Três Arnaldos em um corpo só. Era uma mistura de tudo. Eu também não me conhecia mais. Era eu a mulher do Arnaldo: a do começo, a do meio ou a do fim? Jurei silêncio. Ele gostou do meu silêncio. Sumiu. Deixou a escova de dente.
Passava metade da minha vida perdendo remédio, batom, Arnaldo e a outra metade procurando Arnaldo, batom, remédio. Batom sem Arnaldo... Remédio por causa de Arnaldo. Quanto remédio a gente toma na vida por causa dos outros? O meu inferno sou eu e o outro. Muito de mim tem no outro e muito do outro está dentro de mim. Cada ml de omeprazol atribuo a alguém e o último ml a mim, gástrica de carteirinha.
Me virei de frente. As costas doíam. Não queria voltar para o computador. Tudo me lembrava o Arnaldo. A falta do torpedo. A falta do e-mail. A falta do toque. O toque do Arnaldo... O tato é o sentido mais profundo. É a união total. Toco o Arnaldo o Arnaldo me toca. Minha direção é o toque. Tocava Arnaldo... deixávamos de ser sujeito e objeto... éramos uma coisa só... pelo menos no instante do toque. Saudade de tudo. O meu espaço não era mais aquele. O meu tempo era outro. O agora me chamava. Tinha de escrever. Nem aqui nem agora me interessavam mais. Eu era outrora e alhures. Levantei do sofá. Dor na sola do pé: uma picadinha. Levantei a sola pra ver. Era um caco de unha me picando. Na cozinha, um pedaço de pizza fria. Abri o computador. O conto precisava começar.
sabato 9 ottobre 2010
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